Mulher, Direito e Sociedade
Rosângela Sleder estreia como nova colunista na CBN Maringá
A advogada, escritora e historiadora Rosângela Sleder estreia a coluna Mulher Direito e Sociedade na CBN Maringá. Quinzenalmente, às quartas-feiras, às 14h20, em 95,5 FM e no site. Neste primeiro encontro, Rosangela falou sobre a carreira, a trajetória e o que motivou a criação do projeto. Ouça:
Voz Ativa: Quando o Direito Deixa o Papel para Habitar a Vida
Uma introdução ao projeto que transforma os códigos de proteção em espaço de escuta e recomeço.
Há um instante preciso na liturgia do sistema de justiça em que o peso da caneta do legislador cede lugar à gravidade da experiência humana. Como historiadora que passou as últimas décadas decifrando as correntes sociais e como jurista que compreende a engenharia fria dos códigos, aprendi que as leis brasileiras são, frequentemente, monumentos de papel.
O país possui uma das arquiteturas legais mais minuciosas do mundo ocidental para a proteção do ser humano e das mulheres em especial; batizamos textos com nomes de vítimas reais, tipificamos condutas com precisão cirúrgica e elevamos penas na tentativa de conter a barbárie. No entanto, os noticiários e o Diário Oficial são territórios distantes das madrugadas onde o medo faz morada, fazendo vítimas minuto a minuto.
Olhar para o mundo atual é testemunhar uma das mais bonitas e profundas revoluções da história humana: a ocupação inegociável da mulher em todos os espaços de relevância da sociedade. Elas sustentam lares, lideram grandes corporações, transformam a ciência, ditam os rumos da política e moldam a cultura contemporânea com uma força que nenhuma estrutura arcaica foi capaz de conter.
A evolução dos direitos das mulheres não é uma concessão do Estado, mas o resultado de uma caminhada histórica pavimentada por coragem, resiliência e solidariedade. Cada avanço legal no cenário global reflete uma sociedade que começa a compreender que o desenvolvimento econômico, humano e democrático de um povo depende, fundamentalmente, da liberdade e do protagonismo de suas cidadãs.
É exatamente no abismo entre o texto impresso na lei e a solidão da mulher que sofre a violência — seja ela física, psicológica, digital ou patrimonial — que se projeta o Voz Ativa: Direito, Mulher e Sociedade. Este projeto não nasce para ser apenas mais um compêndio explicativo ou um manual burocrático de direitos. Ele emerge como um manifesto de presença, uma ponte estendida sobre o isolamento e, acima de tudo, um porto seguro de acolhimento técnico e humanitário, que busca dar voz àqueles que desejam falar e ouvir. O Voz Ativa compreende que a informação jurídica não deve ser uma ferramenta de erudição dos tribunais, mas um instrumento de emancipação que precisa ser entregue, traduzido e garantido nas mãos de quem dele necessita para sobreviver.
Nesta série especial de doze encontros que começamos hoje, nós não vamos apenas ler os artigos e incisos que tentam blindar as mulheres brasileiras, falar um pouco do Direito e da nossa comunidade. Nós vamos caminhar pelos cenários onde essas leis operam, tateando a realidade prática de cada uma delas. Vamos desatar os nós burocráticos de conquistas históricas e, com a mesma honestidade, apontar os pontos deficientes do direito privado que ainda fragilizam o bolso e a autonomia feminina.
Cada texto desta coletânea foi desenhado para funcionar como um diagnóstico social e um abraço editorial, provando que a compreensão do direito é o primeiro passo para que uma mulher consiga retomar as rédeas da própria narrativa, exercendo sua cidadania na vida prática.
Seja você uma leitora que busca entender os seus caminhos em um contrato de casamento, uma cidadã que precisa descobrir onde buscar socorro médico e financeiro após o trauma, ou alguém que simplesmente carrega um silêncio pesado demais no peito: feche os olhos por um segundo e saiba que este espaço é, antes de tudo, o seu refúgio. Não há julgamentos aqui, apenas uma escuta atenta que valida a sua dor e reconhece a sua força monumental.
O Voz Ativa existe para lembrar que a sua história importa, que a sua integridade é inegociável e que você merece habitar um mundo onde o seu caminhar seja leve e seguro. Convido você a puxar uma cadeira, servir-se de um café e acompanhar, pilar por pilar, o mosaico jurídico que afeta a vida de todas nós. Acompanhe a nossa série e descubra como a lei pode deixar de ser uma promessa distante para se tornar a ferramenta do seu próprio recomeço.
Por Rosangela Sleder. Maringá, 25 de maio de 2026.