Mulher, Direito e Sociedade
Do plenário ao celular: o que a crise no STF nos ensina sobre as mulheres e o poder das provas digitais
Enquanto o topo do Judiciário se desgasta em debates sobre a validade de diálogos vazados, a correta preservação de mensagens de WhatsApp define a sobrevivência de milhares de mulheres na Justiça.
Por Rosangela Sleder
O Brasil acompanhou recentemente um dos momentos mais emblemáticos da nossa história institucional contemporânea. Diante de um cenário de visível racha e discussões acaloradas no plenário do Supremo Tribunal Federal — motivadas por investigações que envolvem a extração de dados telefônicos —, o gesto mais marcante não partiu de um voto técnico ou de uma tese jurídica complexa. Veio do desabafo sincero de uma Mulher: a Ministra Cármen Lúcia, lembrando eticamente a história e o papel do STF diante de um país imenso e cheio de esperança.
Na condição de única mulher a compor o Plenário atualmente, a ministra verbalizou o cansaço do cidadão comum diante da espetacularização do poder e tomou uma atitude rara na política: pediu desculpas ao país. Sua postura trouxe uma necessária dose de humanidade e responsabilidade ética para o centro do debate. No entanto, há uma ironia profunda flutuando sobre aquele palácio. Enquanto os homens mais poderosos da República discutem o destino de grandes investigações com base em conversas eletrônicas, aqui embaixo, na base da sociedade, a mesma tecnologia decide o futuro de milhares de cidadãs — mulheres sofridas, abatidas pela violência física e psicológica.
Longe dos holofotes de Brasília, o WhatsApp deixou de ser apenas um aplicativo de conversas diárias. Ele se transformou no principal escudo de proteção e busca por direitos para as mulheres. É na tela do celular que ficam registradas as ameaças que fundamentam um pedido de medida protetiva de urgência, os insultos que comprovam a violência psicológica ou as confissões de ocultação de bens em divórcios litigiosos. O aplicativo virou o arquivo oficial da vulnerabilidade — e da reação — feminina. E averbamos aqui: não apenas o aplicativo, mas o próprio aparelho telefônico.
Para que essas conversas tenham validade e protejam quem precisa, o Direito estabelece regras claras sobre o que pode ser levado ao juiz. Embora a nossa legislação processual civil adote o princípio de que qualquer meio idôneo é válido para provar a verdade, o sistema de Justiça penal e civil tem fechado o cerco contra a informalidade. Hoje, os tribunais superiores invalidam com frequência as famosas capturas de tela, os populares prints. O entendimento é de que uma imagem isolada pode ser facilmente manipulada, cortada ou editada, o que rompe a integridade daquela evidência.
Por isso, para uma mulher que busca justiça, entender o peso de uma prova legal é uma questão de sobrevivência processual. Deixar de apresentar a prova no formato correto pode significar o silenciamento de uma vítima por mera formalidade técnica. Para blindar esses diálogos, o caminho ideal exige registrar as mensagens por meio de uma ata notarial feita em cartório — onde um tabelião confere fé pública ao conteúdo — ou utilizar plataformas digitais auditáveis que consigam rastrear e certificar os metadados da conversa.
O tribunal no topo da República continuará lidando com suas crises políticas e disputas sobre o que deve ou não constar nos autos. Contudo, a sensibilidade de Cármen Lúcia e a realidade das mulheres que dependem, em parte — mas não apenas deles —, de seus celulares para provar abusos nos lembram da mesma premissa: as leis só fazem sentido quando servem para proteger a dignidade humana. A verdadeira Justiça é aquela que não tem medo de encarar a realidade dos fatos, aconteçam eles em um relatório confidencial da Suprema Corte ou na palma da mão de uma mulher.
Que esta Coluna Mulher, Direito e Sociedade possa, de verdade, dar voz a todas as mulheres e contribuir para a mudança de posicionamento de cada uma, trazendo uma perspectiva essencial sobre liderança, maturidade e a voz feminina ocupando espaços de poder — não apenas institucionais, mas, especialmente, no lar e no trabalho de cada uma.