Gilson Aguiar: 'futebol, lucro ou prejuízo?'
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Gilson Aguiar: 'futebol, lucro ou prejuízo?'

Por Gilson Aguiar em 02/07/2018 - 08:37
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Um levantamento feito pelo Impacto do Consumo no Varejo (ICVA) mostra uma queda média de 24,7% do comércio no varejo nos horários de jogos do Brasil na Copa do Mundo. O levantamento é feito pela base de análise da Cielo, empresa que administra cartão de crédito. Quando se fala, por exemplo, de alimentos e bares, a queda é de 35,4%. Mas se analisarmos o setor de vestuário, a redução do movimento ultrapassa os 57%,

Os brasileiros também deixam de frequentar os postos de saúde, o movimento nas Unidades de Pronto Atendimento tem queda aparente, não se tem dados tão precisos, mas a impressão é esta. Há quem poste fotos nas unidades de atendimento sem movimento na hora do jogo. Será que reduz também os assaltos, tanto a pessoas, como a estabelecimentos de comerciais?

O que sabemos é que escolas públicas e privadas, empresas dos mais diversos ramos, reorganizam seus horários. Algumas fecham as portas. Em várias delas tem até bolão. O qual tem aplicativo especializado para baixar no celular e fazer do evento esportivo uma aposta. No Brasil, o futebol tem sua história.

O esporte nasceu como uma prática de elite. Jogado pelos filhos dos aristocratas no final do Século XIX e início do Século XX. Charles Miller, inglês, é tido como o primeiro a apresentar aos brasileiros uma bola de futebol. E foi nos campos dos clubes de alta renda. Pobre se imitou a assistir da arquibancada, se quisesse teria que inventar a bola e jogar na várzea. Somente a partir da década de 1920 que os negros e mulatos passaram a poder fazer parte das equipes oficiais de futebol.

Na década de 1930 o esporte ganhou a profissionalização. O pai do nacionalismo de estado, o golpista Getúlio Vargas, enfiando goela a baixo, viu na popularização do futebol, assim como do Carnaval, uma forma de associar o estado ao povo. Estádios foram construídos com recursos públicos, uma liga nacional foi criada (1933). Antes disso o país participou da primeira Copa do Mundo de Futebol no Uruguai (1930).

O esporte pegou, alavancou e fez com que o estado investisse em uma Copa do Mundo no país, em 1950, construindo o maior estádio do mundo na época, o Maracanã. O estado comprou e se beneficiou da ideia de ser o país do futebol. Presidentes se associaram a bola, aos gramados, aos jogadores. O presidente Emílio Garrastazu Médici não tirava o radinho do ouvido. No mesmo dia que autorizou torturas, também comemorou a conquista da Copa do Mundo de 1970.

Política e futebol geraram frutos. Não por acaso, jogadores viraram políticos. Romário talvez seja hoje o melhor exemplo. Pelé já foi cogitado a presidente. Lula e seu Corinthians renderam popularidade e uma obra faraônica em um estádio de futebol para a realização da Copa do Mundo no Brasil, em 2014. O presidente usava a lógica de técnico de futebol para governar o país. Acabou preso. Ninguém cogita a prisão de outro “Luís”, o Scolari, que perdeu de 7 a 1 para a Alemanha. Porém, parte dos brasileiros quer a volta do petista, nenhum deseja o retorno do ex-técnico.

Mas em muitos países a história não é tão diferente. O futebol também se confunde com a pátria. Mais que isso, acaba por se tornar um grande investimento e empreendimento. As Copas do Mundo já atraíam recursos significativos antes da transmissão via satélite. Depois dela, o futebol se tornou um espetáculo internacional. Empresas mundiais investem no evento e obtém retorno significativo com a associação aos jogadores, clubes e o espetáculo publicitário nos estádios, nas cidades e nos país. O negócio é bom e rende muito.

Os craques, os grandes jogadores de futebol, e seus salários astronômicos devem ser pensados na proporção em que geram lucro para as empresas e empreendimentos envolvidos. Na sociedade de mercado não existe “almoço de graça”, o ganho é proporcional ao que se rende e se ganha muito é porque rende muito mais.

As emissoras de rádio e TV passaram a ter no futebol uma fonte milionária de renda. Hoje, a internet disputa este espaço. Muitas assistem às partidas e acompanham seus clubes pelo dispositivo móvel. Logo, se consideramos o futebol um mal, é um mal para quem? Há mais riqueza sendo movimentada na espetacularização do esporte do que na crítica de sua idolatria com um “ópio do povo”. Logo, é preciso um olhar mais atento ao evento e suas aparências. É melhor deixar a “bola rolar”.