Gilson Aguiar comenta o carnaval no Brasil
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Gilson Aguiar comenta o carnaval no Brasil

Por Gilson Aguiar em 12/02/2018 - 08:34

Uma festa histórica, europeia, cristã. O carnaval antecede a quaresma e é o momento de fazer tudo o que o não se pode. A festa do excesso. Sair do dia a dia e agir como se deseja de forma extrema. A liberdade em sua expressão mais original e, por isso, perigosa. O carnaval é o momento de ficar irreconhecível. Como diz a música de Chico Buarque: “Quem te viu, quem te vê, quem não a conhece não pode mais ver para crer e quem jamais se esquece não pode reconhecer”.

O carnaval, no Brasil, trazido pelos europeus, se constituiu em mais uma amálgama do encontro entra brancos e pretos, plagiando o antropólogo Darcy Ribeiro. Na periferia dos grandes centros, como da antiga capital, o Rio de Janeiro, foi momento de crítica. Se descia o morro, se percorria as ruas. Os ricos, os abastados e ditos cultos, fechavam suas janelas, saiam da cidade para não conviver com o que consideravam uma expressão da pobreza. O carnaval é coisa de quem não tem o que fazer. Há quem pense assim ainda hoje.

Mas o carnaval popular e original ganhou as graças do nacionalismo varguista. Na década de 1930 ganhou calendário e apoio oficial. Desfile organizado e a festa ficou mais estética. A beleza ganhou espaço e a crítica e a identidade popular enfraqueceram. Na venda da imagem se perdeu o conteúdo. Hoje, assim como outras expressões culturais, ele é um produto a ser saboreado.

Porém, o empobrecimento do sentido e conteúdo faz do carnaval, cada vez mais, um lugar para se extravasar os interesses particulares, a vontade pequena de cada folião. Os grandes temas vão se perdendo e a fala original da crítica dá lugar a pura fantasia sem sentido ou lógica.

Os desfiles de escolas de samba são o maior símbolo do carnaval brasileiro. Uma expressão do que somos. A massa empobrecida das periferias da cidade se organizam durante todo o ano para ter seus 40 minutos de destaque desfilando para os abastados que compram a festa.

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