Gilson Aguiar: "Caminhões, de sonho a pesadelo"

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Gilson Aguiar: "Caminhões, de sonho a pesadelo"

Por Gilson Aguiar em 31/05/2018 - 08:03
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Quando era criança, como muitas da minha geração, sonhava em ser jogador de futebol e também caminhoneiro. Enfileirava latas de óleo de cozinha vazias, cilíndricas, amarradas com arame e puxadas por barbante, fantasiava um caminhão. Na boca, soava o som improvisado de um motor. Era o sonho de ser caminhoneiro. Na mende, viajar pelo país, buscar aventura e sentir a liberdade. Era o olhar da criança sobre uma brincadeira com os olhos no futuro.

A realidade que observamos hoje é bem diferente. A profissão do sonho de infância expressa na verdade, na minha maturidade, um pesadelo. A vida de quem vive na chamada boleia é dura. Amarga, pouco remunerada, de risco. Não é fácil viver a maior parte do mês fora de casa, cumprir uma longa jornada e ver a profissão envelhecer. Filhos de caminhoneiros não tendem a seguir os passos paternos. A média de idade dos caminhoneiros é quase 50 anos.

Mas não é só os motoristas que envelhecem, os caminhões também. Segundo a Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT), a média de idade dos caminhões no Brasil é de 17 anos. 60% da frota já deveria estar aposentada. Parte considerável, 54%, tem problemas de manutenção. O risco é grande em uma estrada.

Se levarmos em consideração o chão onde rodam esta frota, a trama do pesadelo se aprofunda. Mais de 80% das rodovias brasileiras não são asfaltadas. As que são, 76%, são rodovias simples. Mais de 56% tem problemas de manutenção. A logística do país é cara, arriscada e ultrapassada. Em um país onde 60% do que é transportado está na carroceria de um caminhão.

A redução do preço do diesel e a isenção do pedágio para caminhões que circulam vazios não muda a realidade que descrevemos. Mudar este panorama é uma ação de décadas. Requer investimentos de bilhões de reais, muito mais do que os R$ 9 bilhões que o governo vai gastar subsidiando o diesel.

Por isso, é bom termos consciência da dimensão do problema que deve-se se resolver. Por trás do que consumimos todos os dias há uma realidade que não se denuncia, mas quando emerge em fatos como esta paralisação, nos dá a dimensão do que move as nossas vidas.