Escravidão anunciada na internet
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Opinião

Escravidão anunciada na internet

O comentário de Gilson Aguiar por Gilson Aguiar em 27/02/2023 - 13:21

Em meados do Século XIX era comum você encontrar impresso nos jornais que circulavam nas principais cidades brasileiras a venda de escravos para trabalho doméstico. Muitos historiadores já transformaram estes recordes de jornais em fonte de pesquisa para analisar a escravidão no Brasil e a forma como ela se apresentava, ou seja, transformar o ser humano em uma coisa, um produto, um objeto.

Hoje, uma atitude dessa é impensada. Onde poderíamos acreditar que alguém pudesse colocar um anúncio, por exemplo, nas redes sociais, vendendo uma pessoa como escrava e ressuscitando no país seus dias de maior violência social?

Mas, aconteceu. Em Irati, no interior do estado, um homem de 29 anos postou, em março de 2013, no site especializado em venda de produtos uma mensagem vendendo um homem negro como escravo. A mensagem afirmava o seguinte: “Negro Africano Legítimo. Único Dono. Bom Estado de Saúde. Serviços. Animais. Transporte. Alguém precisa de UM ESCRAVO. Baratinho. Único Dono”.

A Justiça condenou o agressor a serviços comunitários, 365 horas, uma hora por dia durante um ano. Considerou uma ofensa de preconceito e injúria racial.

A defesa vai recorrer e considera que a pena não cabe por se tratar de uma brincadeira. Que o agressor e o agredido são amigos. Aqui vale lembrar que muitas das agressões mais dolorosas vem de onde menos você espera.

Publicar uma agressão dessa em ambiente público, em um site especializado em vendas, é um excesso de violência ainda maior. Sem dúvida que a sentença é justa, diria até que branda diante de um país que já naturalizou o preconceito e tem a obrigação de ser um exemplo no respeito a um dos elementos formadores do país.

Sei que o preconceito é prática constante e que o combater é um trabalho árduo. Contudo, esta prática de discriminação e violência tem como fonte a nossa própria formação. Ela deveria nos envergonhar e nunca ser esquecida.

Na formação de um povo, há que se ter orgulho, mas jamais esconder as suas vergonhas. Temos que exaltar nossas virtudes e aceitar e corrigir nossos defeitos.

 

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