Covid-19: Médicos de Maringá se afastam das famílias para protegê-las
foto: arquivo pessoal

Difícil decisão

Covid-19: Médicos de Maringá se afastam das famílias para protegê-las

Saúde por Portal GMC Online em 17/04/2020 - 19:19

"Fiquei mais de duas semanas sem ver minha filha recém-nascida. Só nos vimos de longe na última terça-feira [dia 14]”, conta Bernardo Motta de Paula, de 35 anos, médico plantonista da UTI e coordenador do Pronto Socorro do Hospital Santa Rita de Maringá.

Rebeca, a primogênita de Bernardo e Débora, nasceu no dia 19 de março, um dia depois da confirmação do primeiro caso de coronavírus em Maringá. O pai só pôde curtir a filha na sua primeira semana de vida. No dia 27 de março, a esposa saiu de casa com a bebê para prevenir o contágio.

 

foto: arquivo pessoal
foto: arquivo pessoal

Elas estão morando com os sogros de Bernardo, e desde então, não tiveram mais contato físico com ele, já que ele está diariamente exposto ao risco no hospital. A solução é tentar matar um pouco da saudade por meio de chamada de vídeo.

“Muitos médicos, principalmente os do grupo de risco, têm a opção de ficar em casa, mas no meu caso, que trabalho em UTI, não tem como. Então, me afastei da minha filha e da minha esposa. É bem ruim, afinal sou pai de primeira viagem, então acho que acabo sofrendo mais. Mas neste momento tenho que fazer isso para preservar a nenê, minha mulher, os pais dela”, conta.

Segundo ele, pequenos prazeres da rotina acabaram perdendo a graça, e os finais de semana são ocupados por plantões e mais plantões.

“Não tomo mais café em casa porque não tenho mais ânimo para fazer café, então tomo no hospital. Quando chego em casa não tenho aquele conforto e acolhimento de família que eu tinha antes, e nem adianta ficar feliz esperando o final de semana, porque o tempo demora mais para passar, então tenho procurado trabalhar até nos finais de semana”, acrescenta.

foto: arquivo pessoal
foto: arquivo pessoal

Essa também é a realidade do médico Ronaldo Murai Minholi, de 36 anos, que trabalha na UTI do Hospital Memorial e é cirurgião oncológico no Hospital Bom Samaritano. A esposa Débora, e os filhos Pietro e Antonella, de cinco anos e um ano e oito meses, estão hospedados na casa dos sogros de Ronaldo desde o dia 20 de março.

O médico faz as compras no supermercado e deixa as sacolas na garagem da casa dos sogros. Este é o único contato que tem com a família, de longe, e com máscara.

“A minha preocupação maior é poupar meus familiares disso tudo, e o preço não é nada baixo. Acredito que o pior disso tudo é não poder abraçar, sentir o afago de cada um deles. Isso era minha força motriz. Falar não para as repetidas solicitações de um abraço dos meus filhos, é muito complexo. Minha esposa é crucial, me dando forças (mesmo a distância) durante este período, sempre positiva”, conta Ronaldo Murai Minholi.

“O Covid-19 trouxe muitos desafios aos seres humanos, todavia ele também mostrará o valor imensurável de pequenos momentos, atitudes, com as pessoas que mais amamos, e que por vezes não valorizamos. Oro ao Criador para que, lá de cima, nos proteja durante esta jornada. E, assim que possível, caminhemos em águas calmas novamente, e claro, junto do nosso bem maior: a família!”, acrescentou.

foto: arquivo pessoal
foto: arquivo pessoal

Para a esposa dele, não ter contato físico é o mais difícil, já que o momento pede, mais do que nunca, amparo e acolhimento.

“Nesse momento tão triste e que todos estão assustados, com um cansaço mental anormal, é muito difícil você não poder dar um abraço, um beijo na pessoa que você ama para dar mais conforto do que só o apoio em palavras, vídeos e conversas há dois metros de distância”, afirma.

Todos os dias, o filho mais velho do casal, Pietro, diz que sente falta do pai. “Ele fala que não vê a hora desse corona chato e bobão ir embora para poder dar um abração bem forte no pai dele”, conta Débora. E a caçula, Antonella, chora, querendo o colo do médico, quando o vê de longe. “Quando ela fica pedindo colo e ele não pode pegar, ela chora muito, dando os bracinhos. E todos nós choramos juntos”, relata a farmacêutica.

Por Lethícia Conegero / Portal GMC Online

 

Precisa sair de casa? Use Máscara. Clique aqui e saiba por que ela é importante.