Memória
Medida da ausência: uma homenagem ao amigo Ademar Binhardi
Especial por Gilson Aguiar em 04/03/2026 - 09:35
Quem me conhece sabe: não sou muito afeito à espiritualidade. Sou sempre mais racional na análise e afetivo pelo sentimento das relações desta vida vivida. São os encontros que, ao longo da existência, temperaram o que acredito e espero das pessoas. A questão sobre o sentido da vida sempre emerge diante da perda; nela, o propósito de viver pulsa, não sai do coração nem da mente.
Fui pego por esse sobressalto na semana passada, quando perdi um amigo: Ademar Binhardi. Aos 72 anos, o homem de sorriso fácil e cumprimento forte não me abordou mais. Engraçado que nossos encontros não eram planejados, porém eram intensos na sinceridade de melhorar o humor na batida do dia.
Quando a tristeza de sua partida bateu, tive a proporção exata do sentimento. É quase sempre como diziam Nietzsche e Pascal: na falta, encontra-se a medida do que se sente, pois, na presença, não sabemos medir. A dor maior não é a partida, mas a ausência. Sim, eu vou sentir sua falta, terei saudade, mas jamais esquecerei.
"Nossa amizade foi construída pela admiração mútua. Ele elogiava meu trabalho como jornalista e eu o considerava imensamente como empreendedor, pai e avô. Na profissão, suas “receitas de vida” me faziam refletir sobre o melhor caminho a seguir. Ironicamente, em nosso último encontro, ele me falou sobre como buscava cuidar da saúde para viver mais com quem amava. Não era um mago, mas tinha sempre um conselho vital na ponta da língua."
Sua fala buscava resumir, em poucas palavras, a filosofia de uma vida inteira. Não lhe faltava experiência. A sabedoria saltava pela lógica dos fatos; ele sempre soube o que era mais importante diante das escolhas, e nunca era a matéria, mas a emoção de quem conduz a vida. Eu bebi muito dessa sabedoria e imagino a falta que fará a quem viveu ao seu lado com mais intensidade.
Confesso, não sou quem mais tem propriedade para falar de Ademar. Há outros, amigos de longa data e familiares, que o conheciam muito melhor. Aqui, relato o que me cabe, mas com um sentimento que não tive por muitos com quem convivi por mais tempo.
"O amigo que viverá eternamente dentro de mim ensinou que não é o tempo de convivência que constrói a relevância, mas a sinceridade e o respeito que dedicamos a quem está ao nosso lado. Amar e querer bem são ingredientes que dão sentido à vida; por isso, há que se tomar cuidado com as faltas e os excessos."
A lição de uma amizade que não morre é levar o outro dentro de si. Ademar permanece na construção dos seres humanos que tiveram em sua existência um toque de suas “receitas”.
Assim, meu eterno amigo, sentirei saudades. Aprendi com ele que a saudade é algo bom quando mostra o valor de quem se foi, sem o desespero da dor. Não me sinto angustiado, apenas queria, como acontece com as coisas boas da vida, um “tempinho a mais”. Mas isso ficará para a próxima oportunidade. Lá, na outra vida. Me aguarde!
Missa de Sétimo Dia
A Missa de Sétimo Dia em memória de Ademar Binhardi será celebrada nesta quarta-feira, 4, às 18h30 na Catedral de Maringá