Eleições 2026
De Collor a Lula e Bolsonaro: Maringá nem sempre votou no presidente eleito pelo Brasil; veja o histórico desde 1989
Maringá nem sempre escolheu para presidente o mesmo candidato que venceu a disputa nacional. Nas últimas décadas, o eleitorado do município alternou suas preferências entre diferentes nomes e partidos, em alguns momentos acompanhando o resultado brasileiro e, em outros, seguindo um caminho diferente daquele definido pela maioria dos eleitores do país.
Um levantamento realizado pelo GMC Online, com base em dados da Justiça Eleitoral, reúne os resultados das eleições presidenciais em Maringá desde 1989 e permite comparar o comportamento dos eleitores da cidade com o cenário nacional. O histórico contempla nove eleições, passando por Fernando Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro, entre outros candidatos.
Os números mostram que Maringá teve votações expressivas para candidatos que acabaram derrotados nacionalmente. Em 2002, 2006, 2010 e 2014, por exemplo, o candidato mais votado no segundo turno na cidade não foi o vencedor da eleição brasileira. Em 2018, por outro lado, Jair Bolsonaro venceu tanto em Maringá quanto no país. Em 2022, a diferença voltou a aparecer: Bolsonaro recebeu a maioria dos votos na cidade, enquanto Lula venceu a disputa nacional.
Para o professor e historiador da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Reginaldo Benedito Dias, a sequência de resultados permite identificar características políticas do eleitorado local. Segundo ele, embora o Partido dos Trabalhadores (PT) tenha ocupado o centro da disputa presidencial ao longo do período, o partido nunca conseguiu uma votação majoritária em Maringá.
“Desde 1989, o Brasil realizou nove eleições presidenciais e vive a conclusão da décima edição. Nessa série histórica, o traço permanente é a presença do PT como um polo da disputa principal”, afirma o historiador. Na avaliação dele, a trajetória eleitoral do município aponta para um perfil conservador, associado também à influência do empreendedorismo privado no imaginário local.
Maringá acompanhou Collor e Fernando Henrique Cardoso nas primeiras eleições

Na eleição presidencial de 1989, a primeira realizada por voto direto após a ditadura militar, Fernando Collor de Mello (PRN) foi o candidato mais votado em Maringá no primeiro turno, com 38.864 votos, o equivalente a 32,03% dos votos válidos. Paulo Maluf (PDS) ficou em segundo lugar, com 23.573 votos, enquanto Lula (PT) recebeu 12.803 votos, correspondentes a 10,55%.
No segundo turno, Collor confirmou a vitória no município, com 73.778 votos (63,84%), contra 41.795 votos de Lula (36,16%). O resultado acompanhou o cenário nacional, no qual Collor foi eleito presidente com 53,03% dos votos válidos.
Em 1994, Maringá também acompanhou o resultado brasileiro. Fernando Henrique Cardoso (PSDB) venceu a disputa já no primeiro turno, com 70.866 votos na cidade, o equivalente a 60,47% dos votos válidos. Lula ficou em segundo lugar, com 30.806 votos (26,29%).
No Brasil, Fernando Henrique foi eleito com 54,28% dos votos válidos, enquanto Lula recebeu 27,04%.
A situação se repetiu em 1998. Reeleito no primeiro turno, Fernando Henrique obteve 88.020 votos em Maringá, correspondentes a 64,11% dos votos válidos. Lula ficou novamente em segundo lugar, com 33.764 votos (24,59%).
No cenário nacional, o tucano também venceu a eleição, com 53,06% dos votos válidos, contra 31,71% de Lula.
2002: Serra vence em Maringá, mas Lula é eleito presidente

A eleição de 2002 marcou uma diferença importante entre o resultado de Maringá e o cenário nacional. No primeiro turno, Lula foi o candidato mais votado na cidade, com 62.829 votos (38,42% dos votos válidos). José Serra (PSDB) recebeu 49.527 votos (30,29%), seguido por Anthony Garotinho (PDT), com 31.315 votos (19,15%), e Ciro Gomes (PPS), com 18.898 votos (11,56%).
No segundo turno, entretanto, Serra virou o resultado no município e terminou à frente de Lula. O tucano recebeu 82.238 votos, correspondentes a 52,11% dos votos válidos, enquanto o petista obteve 75.580 votos (47,89%).
No Brasil, o resultado foi diferente. Lula venceu a disputa presidencial com 52,79 milhões de votos, o equivalente a 61,27% dos votos válidos. Serra terminou com 33,37 milhões de votos (38,73%).
De acordo com Reginaldo Benedito Dias, 2002 foi o melhor desempenho do PT em uma eleição presidencial em Maringá, considerando a votação do partido na cidade. O historiador também destaca que, naquele período, o PT comandava a Prefeitura de Maringá.
Na análise do professor, as eleições presidenciais apresentam uma dimensão ideológica importante. “As eleições presidenciais têm mais conotação ideológica. E o que se afere da série histórica é que o eleitorado maringaense tem um perfil marcadamente conservador”, avalia.
Dias acrescenta que a influência do empreendedorismo privado é uma característica presente no imaginário da cidade. “É uma cidade em que o imaginário do empreendedorismo privado é bastante pronunciado e influente”, afirma.
A interpretação do historiador se refere ao padrão observado nas eleições presidenciais analisadas e não significa que todos os eleitores de Maringá compartilhem a mesma orientação política.
2006: Geraldo Alckmin tem vantagem em Maringá

Quatro anos depois, a diferença entre o resultado local e o nacional voltou a aparecer. Em 2006, Geraldo Alckmin (PSDB) foi o candidato mais votado em Maringá no primeiro turno, com 107.735 votos, o equivalente a 59,86% dos votos válidos. Lula ficou em segundo lugar, com 52.503 votos (29,17%).
No segundo turno, Alckmin manteve a liderança no município, com 104.352 votos (60,05%), contra 69.412 votos de Lula (39,95%).
No cenário nacional, porém, Lula foi reeleito presidente com 58,29 milhões de votos, correspondentes a 60,83% dos votos válidos. Alckmin recebeu 37,54 milhões de votos (39,17%).
2010 e 2014: Maringá escolhe Serra e Aécio, enquanto o Brasil elege Dilma
Nas eleições de 2010, José Serra (PSDB) voltou a vencer em Maringá. No primeiro turno, ele recebeu 91.740 votos (47,10% dos votos válidos), enquanto Dilma Rousseff (PT) obteve 59.665 votos (30,63%). Marina Silva (PV) ficou em terceiro lugar, com 40.949 votos (21,02%).
No segundo turno, Serra ampliou sua votação no município e alcançou 116.774 votos, correspondentes a 61,63% dos votos válidos. Dilma recebeu 72.694 votos (38,37%).
O resultado nacional, entretanto, consagrou Dilma como a primeira mulher eleita presidente do Brasil. Ela venceu Serra com 55,75 milhões de votos (56,05%), contra 43,71 milhões (43,95%) do tucano.
Em 2014, o cenário se repetiu, dessa vez com Aécio Neves (PSDB) como o candidato mais votado em Maringá. No primeiro turno, Aécio recebeu 105.658 votos na cidade, equivalentes a 52,07% dos votos válidos. Dilma ficou em segundo lugar, com 53.923 votos (26,57%), seguida por Marina Silva (PSB), com 35.861 votos (17,67%).
No segundo turno, Aécio ampliou a vantagem e terminou a disputa municipal com 137.480 votos (65,98%). Dilma recebeu 70.875 votos (34,02%).
No Brasil, a eleição teve um resultado diferente. Dilma foi reeleita com 54,50 milhões de votos (51,64%), enquanto Aécio recebeu 51,04 milhões (48,36%).
2018: Bolsonaro vence em Maringá e no Brasil
A eleição de 2018 trouxe um resultado em que Maringá e o país escolheram o mesmo candidato. No primeiro turno, Jair Bolsonaro, então filiado ao PSL, recebeu 128.477 votos no município, o equivalente a 60,91% dos votos válidos. Ciro Gomes (PDT) ficou em segundo lugar, com 23.279 votos (11,04%), praticamente empatado com Fernando Haddad (PT), que recebeu 23.093 votos (10,95%).
No segundo turno, Bolsonaro ampliou sua votação e alcançou 157.818 votos em Maringá, correspondentes a 75,84% dos votos válidos. Haddad recebeu 50.271 votos (24,16%).
No cenário nacional, Bolsonaro também venceu, com 57,79 milhões de votos (55,13%), contra 47,04 milhões (44,87%) de Haddad.
2022: Bolsonaro lidera em Maringá, mas Lula vence no Brasil
Na eleição presidencial de 2022, Maringá voltou a apresentar um resultado diferente do nacional. No primeiro turno, Bolsonaro (PL) foi o candidato mais votado na cidade, com 136.721 votos, o equivalente a 59,58% dos votos válidos. Lula (PT) recebeu 67.534 votos (29,43%). Simone Tebet (MDB) ficou em terceiro lugar, com 13.555 votos (5,91%), seguida por Ciro Gomes (PDT), com 7.836 votos (3,42%).
No segundo turno, Bolsonaro ampliou a votação para 157.051 votos, correspondentes a 67,71% dos votos válidos. Lula recebeu 74.885 votos (32,29%).
No Brasil, entretanto, Lula venceu a disputa com 60,34 milhões de votos (50,90%), enquanto Bolsonaro recebeu 58,20 milhões (49,10%). A eleição foi uma das mais apertadas da história presidencial brasileira, com diferença de aproximadamente 1,8 ponto percentual entre os dois candidatos.
O resultado reforçou a diferença entre a preferência do eleitorado de Maringá e a decisão nacional: enquanto Bolsonaro teve vantagem superior a 35 pontos percentuais sobre Lula na cidade, o petista venceu a disputa no conjunto do país.
Perfil eleitoral de Maringá acompanha tendências regionais
A leitura dos resultados municipais também pode ser contextualizada a partir dos estudos sobre a geografia eleitoral do Paraná. Daniel Galuch Junior, analista judiciário lotado na Seção de Gestão Documental, Memória Institucional e Biblioteca (SEGDMB) do Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR) e coorganizador do Atlas Eleitoral do Paraná, explica que o projeto reúne dados históricos para analisar o comportamento dos eleitores no estado.
Segundo Galuch, o Atlas é resultado de uma parceria institucional entre o TRE-PR, o programa de Mestrado e Doutorado em Geografia da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), em Guarapuava, e o Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes). Criado em 2019, o projeto reúne informações sobre as eleições para governador e presidente realizadas no Paraná.
O trabalho está atualmente no terceiro volume. As publicações já abordaram as eleições para governador de 1945 a 2022 e as eleições presidenciais de 1945 a 1998. Conforme o analista, a previsão é que o quarto volume, dedicado às eleições presidenciais de 2002 a 2022, seja publicado em 2027.
“O Atlas Eleitoral do Paraná é uma parceria institucional entre o TRE Paraná, o Mestrado e Doutorado em Geografia pela Unicentro de Guarapuava e o Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social, o Ipardes. É um projeto criado desde 2019 que reflete a geografia eleitoral de todas as eleições de governador e presidente que o Paraná já teve”, explica.
Galuch ressalta que o levantamento vai além da identificação dos candidatos mais votados. Para ele, os dados também permitem compreender mudanças no perfil dos eleitores, no comparecimento às urnas e na abstenção ao longo do tempo.
“Neste livro, que utiliza os dados abertos da Justiça Eleitoral, a expertise dos pesquisadores da Unicentro e os mapas dos técnicos do Ipardes, não se mostra apenas a performance de cada candidato. É um retrato fiel, não só dos eleitos e derrotados, mas também das digitais do povo paranaense: o método de escolher, as escolhas, a evolução do eleitorado e as questões referentes ao comparecimento e à falta, a abstenção”, afirma.
Na avaliação do analista, o crescimento do eleitorado paranaense vem acompanhado de mudanças demográficas e de diferenças regionais. Ele observa que o número de eleitores aumenta e que o perfil se torna cada vez mais feminino e maduro, tendência que também pode ser percebida em Maringá.
“Temos percebido, com o aumento do eleitorado paranaense, a dinâmica regional estabelecida. Um eleitorado cada vez maior, um eleitorado cada vez mais feminino e maduro, e em Maringá isso não é diferente”, diz.
Galuch também chama a atenção para a importância do comparecimento às urnas e da abstenção, especialmente diante da presença de eleitores com voto facultativo. No Brasil, o voto é obrigatório para pessoas alfabetizadas entre 18 e 70 anos e facultativo para jovens de 16 e 17 anos, pessoas com mais de 70 anos e pessoas analfabetas.
Ao comentar o desempenho dos candidatos, o analista identifica uma aproximação entre o padrão eleitoral de Maringá e o de outras cidades do norte do Paraná. Segundo ele, a região apresenta, nas disputas presidenciais analisadas, uma tendência de maior votação para candidatos de direita.
“Na performance, a exemplo de Maringá, com outras cidades do norte do Paraná, cada vez mais temos um eleitorado e uma escolha de candidatos pautados em candidatos da direita, quase como um reflexo de como é a votação também no estado de São Paulo”, afirma.
Ele acrescenta que o comportamento eleitoral observado no interior paulista costuma apresentar semelhanças com o de Maringá. “Geralmente, os candidatos a presidente escolhidos no interior paulista têm um padrão semelhante ao observado em Maringá”, conclui.
O que os resultados mostram sobre o voto em Maringá?
A comparação entre as nove eleições presidenciais realizadas de 1989 a 2022 revela que o comportamento eleitoral de Maringá não pode ser resumido a uma única preferência permanente. Ao longo do período, a cidade acompanhou o resultado nacional em algumas disputas e escolheu candidatos derrotados no país em outras.
Em 1989, Collor venceu tanto no município quanto no Brasil. Fernando Henrique Cardoso repetiu esse cenário em 1994 e 1998. A partir de 2002, entretanto, as diferenças ficaram evidentes: Serra venceu em Maringá, mas Lula foi eleito presidente. Em 2006, Alckmin liderou na cidade, enquanto Lula conquistou a reeleição nacional. Em 2010 e 2014, Serra e Aécio venceram no município, mas Dilma foi eleita e reeleita no país.
Em 2018, Bolsonaro venceu nas duas escalas. Em 2022, voltou a liderar em Maringá, mas perdeu a eleição nacional para Lula.
Os números também mostram o crescimento do eleitorado apto da cidade. Em 1989, Maringá tinha 136.977 eleitores inscritos. Em 2022, esse total chegou a 295.684, mais que o dobro do registrado na primeira eleição da série.
As análises dos entrevistados acrescentam outras dimensões a esse histórico. Enquanto Reginaldo Benedito Dias identifica um perfil conservador nas escolhas presidenciais de Maringá, Daniel Galuch Junior destaca a importância de observar a evolução do eleitorado, a participação nas urnas e as semelhanças entre o município e outras regiões do Paraná e do interior de São Paulo.
O levantamento do GMC Online permite, assim, observar não apenas quem venceu cada eleição, mas também como a escolha dos eleitores maringaenses se relacionou com as decisões tomadas pelo conjunto dos brasileiros ao longo de mais de 30 anos. Os resultados históricos, aliados às análises dos especialistas, ajudam a compreender as particularidades do voto local sem reduzir a diversidade política dos eleitores a uma única explicação.
Fontes: Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR), Atlas Eleitoral do Paraná e Estatísticas Eleitorais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Os resultados municipais foram organizados a partir dos dados eleitorais oficiais, com destaque para o segundo turno nas eleições em que houve disputa final. As análises sobre o perfil eleitoral e o Atlas Eleitoral do Paraná foram acrescentadas a partir de entrevistas concedidas ao GMC Online.